
quem já não se perguntou: sou um monstro ou isso é ser uma pessoa?
clarice lispector, a hora da estrela.
nem todo o autoconhecimento do mundo vai te salvar daquele fardo que às vezes recai: o fardo de se sentir uma fraude.
esse eu, que vive, come, bebe e, principalmente, respira, não pode ser eu.
em a descoberta do mundo, livro também de clarice lispector, a mesma indaga: “se eu fosse eu?”.
experimente: se você fosse você, como seria e o que faria? logo de início se sente um constrangimento: a mentira em que nos acomodamos acabou de ser levemente locomovida do lugar onde se acomodara.
— a descoberta do mundo.
ousei me indagar, e me encontro perdida. essa perdição sempre me leva a escrever. se eu fosse eu, certamente não seria quem sou agora. não poderia, pois quem sou fere quem o eu é.
fraude, veio do seguinte questionamento: se sou tão boa falando em público, quando a dois, em quatro paredes, por que não consigo descrever o que sinto? saber falar bem em uma multidão de desconhecidos e sempre desviar o olhar quando os ouvidos que escutam são os de alguém que me conhece malditamente bem.
pois esse fato, vem da certeza de não querer ser conhecida malditamente bem. uma multidão de desconhecidos é uma multidão de possibilidades para o eu. o eu pode ser tudo, pois há ali infinidades de pessoas, de mundos, de criações de personalidade. o meu eu pode ser tudo ou nada, dependendo do que eles quiserem.
mas e aquele único que me conhece, aquele que possui o par de olhos que já me viu, não inteiramente, já que isso é um tanto quanto impossível, porém, de tal forma tão completa que me constrange. aquele único universo, aquela única possibilidade, que já não mais pode ser possibilidade porque já se comprovou. a expectativa foi quebrada, a magia, a esperança, a fantasia. nada mais posso ser, se não ser eu.
não, nada mais poderei ser, se não ser o eu que aquela pessoa conheceu. e esse eu, esse eu que me enoja, me envergonha, me revela. não posso ser mais nada além dele, pois agora, também preciso satisfazer o desejo daquele outro, o único, de que só posso ser exatamente o que já sou.
se eu fosse eu, certamente, morreria. se eu fosse eu, nada mais teria, ninguém, a não ser solidão.


